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mar
09

Cinema: a “Luz Vermelha” não se apagou…

Crédito da foto: Gabriel Chiarastelli/Divulgação/Portal "G News"

Crédito da foto: Gabriel Chiarastelli/Divulgação/Portal "G News"

Em uma de nossas postagens antigas, falamos de Ney Matogrosso… mas de forma an passain. Neste texto, porém, é dele todas as nossas atenções!

Que todo mundo saiba – ou pelo menos, desconfie – de sua opção homoafetiva, não há novidades… Da sua verve e eloquência cênica, onde suas apresentações, misturam música e teatro no mesmo palco – isto desde os tempos de Secos & Molhados – também todos nós reconhemos sua genialidade!

Ontem eu li no Portal G – isto mesmo: um Portal de Notícias direcionado ao Público Gay!!!  – que Nei Matogrosso estrelará um filme sobre o famoso Bandido da Luz Vermelha, interpretando o papel principal.

A notícia de que Nei – além de cantor e dançarino –  também atua, até mesmo, diante das câmeras cinematográficas, por si só já nos chama a  atenção! É mais uma “faceta” de um artista multifacético e que – dos altos de seus 50 anos de idade – mantém a sua jovialidade e sua capacidade de reinventar-se, conseguindo a proeza de sempre surpreender seu público…

A produção de mais um filme sobre  a vida de João Acácio Pereira da Costa – o verdadeiro nome do Bandido da Luz Vermelha – poderia soar como mais um filme sensacionalista e apelativo, apresentando uma versão glaumourizada e caricata da personalidade doentia e criminosa de um bandido qualquer…

Sim, pode até ser. Só saberei – ao certo – quando assistir ao filme! Porém, fico contente, pois este filme é a continuação do primeiro filme feito sobre a vida de João Acácio. E possibilita corrigir e denunciar em que situação degradante e indigna João morreu… aliás: de glamour, só mesmo o “mito”.

O filme original – datado de 1968 –  foi filmado no “calor dos fatos e das emoções“; João havia sido preso em 8 de agosto de 1967 – pouco mais de um ano antes do filme. Trata-se, portanto, de um filme antigo e prosaico, que somente retratou a face mais “monstruosa, criminosa e glamourizada” de João Acácio.

João Acácio cumpriu rigorosamente 30 anos de pena de reclusão: foi posto em liberdade apenas em 26 de agosto de 1997. Já era um idoso, com saúde física e mental completamente debilitadas. Corpo e mentes senis, viveu apenas mais 4 meses de vida – na bucólica Joinville (SC) – até ser assassinado por alguém. A sua morte – em 5 de janeiro de 1998 – permanece até hoje não solucionada e seu algoz, permanece anônimo e não identificado.

Lembro-me bem de quando João foi solto: a sua libertação foi sensacionalizada, praticamente, por todos os canais de TV. Desenterraram os fatos acontecidos há mais de 30 anos e tentaram endemonizá-lo perante a opinião pública.

Qualquer um que tivesse um mínimo de bom senso e humanidade, poderia notar que “aquele João” libertado, em nada lembrava “aquele tal de Bandido da Luz Vermelha”. Ficou também uma importante constação e reflexão: qual o sentido do ESTADO PUNIR UM CRIMINOSO?

No Direito Penal Brasileiro, pelo menos em teoria, deveria o Estado transformar a “condenação do culpado”, em oportunidade de ressocialiabizá-lo para inseri-lo novamente na sociedade, ao final da sua pena. Portanto, PENA não é vingança…

Mas João Acácio foi um retrato fiel e público de como as prisões brasileiras estão muito longe dessa teoria humanista da pena! Sua vitalidade e saúde foram ceifados, ano após ano, dentro de uma cela prisional.

Ele não foi preparado para recomeçar uma nova vida após sair da prisão. João foi simplesmente abandonado pelo Estado, após 30 anos de total dependência dele. Fizeram com João, como fizeram com os escravos libertos na Abolição de 1888! Deixaram-no à mercê da própria sorte, ao Deus-dará!

Ficaria imensamente feliz que este novo filme retrate esse lado da vida de João Acácio. E que Ney Matogrosso consiga, realmente, transpor para as telas, a intensidade do sofrimento humano “do João”… deixem o “Bandido da Luz Vermelha” no passado remoto!

Em tempo: eu só fiquei sabendo dessa notícia por acaso! Cliquei inadvertidamente no “canal” Gay — malditos (ou não!) mouses touch pads – quando, na verdade, queria ter clicado no canal Fotoblog, que na barra de menus do UOL, está logo acima da opção do portal G.

Não pude deixar de constatar uma curiosidade: o canal praticamente só contém material direcionado aos gays masculinos (se é que posso usar essa expressão, esse eufemismo).

Não vi matérias interessantes sobre e para lésbicas – a única coisa que eu vi foi um ensaio sensual, totalmente clichê, com Thammy (a filha da Gretchen, que depois de posar nua, resolver ‘sair do armário’ e uma modelo genérica qualquer – … por que será?

Será que até mesmo entre o próprio público homossexual existe um preconceito? Será que somente os gays finos e ricos tem direito à um site de notícias e conteúdo direcionado à eles? Lésbicas, travestis, bissexuais, transsexuais, simpatizantes e bichinhas pobres, tem que “se contentar” com coisas de gosto duvidoso – como o tal ensaio de Thammy?

DIGNIDADE JÁ – parafraseando outro ilustre gay, Leão Lobo.

Vemos que os meios de comunicação não aprenderam a lição. Da mesma forma que “roubaram” a dignidade de João Acácio, ainda nos dias atuais, teimam em não reconhecer à essa plêiade de pessoas que optaram – voluntariamente ou não – em assumir uma sexualidade diferente – o direito de TEREM DIGNIDADE.

Pergunto-me: e os direitos de uso e imagem de João Acácio? Será que ele nada recebeu por ter tido sua vida exposta e explorada comercialmente em filmes e DVDs (como os da série Linha Direta Justiça – lançado pela Globo), ainda em vida, para poder desfrutar de uma sobrevida, no mínimo, menos indigna?

São coisas que fico a refletir!

Quer LER e VER mais sobre…

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