28
maio
09

Livros: Bala Perdida – Arthur Correa Cabral

Um retrato sereno e equilibrado da violência cotidiana do Rio de Janeiro

Um retrato sereno e equilibrado da violência cotidiana do Rio de Janeiro

Comprei esse livro por R$9,90 no Wall Mart, por dois motivos: primeiro, o preço convidativo; e o segundo: o tema prometia ser uma boa leitura.

Sinceramente, o que eu esperava desse livro, era um romance ficcional sobre a violência cotidiana do Rio de Janeiro, num estilo semelhante ao “Elite da Tropa” — o livro que inspirou o filme “Tropa de Elite”.

Mas o que acabei encontrando foi algo bem mais surpreendente: “Bala Perdida” é um relato angustiado e reflexivo, de um ex-Delegado de Polícia Civil na cidade do Rio de Janeiro, que busca em sua própria autobiografia, memórias de fatos, personagens e acontecimentos policiais, resultando num retrato extremamente sensato, mas dilacerante e fiel, do cotidiano de violência urbana.

O Delegado Cabral analisa temas aparentemente “disconexos”, como Bailes Funks ou Táxis Piratas, expondo como estão diretamente ligados ao Tráfico de Drogas e Armas: o surgimento de organizações criminosas, as guerras entre facções rivais, a gênese das milícias paramilitares…

Concomitantemente, ele também faz uma análise sociológica sobre a Violência, relacionando como a ausência do Estado, a má-influência dos meios culturais (TV, Música, Rádios), a falta de pulso firme dos pais e mães… como tudo isso são ingredientes de uma explosiva fórmula!

Prólogo – Elite da Tropa

Eu estava no Rio de Janeiro, passando férias… era uma tarde chuvosa de segunda0-feira. Não tinha muita coisa de bom para se fazer no Hotel. Resolvi sair para almoçar. Nas ruas da Lapa, achei um restaurante que ainda servia almoço — eram mais de 2 da tarde.

Para ajudar a fazer digestão, fui dar uma caminhada pelo Centro Antigo do Rio (nessa alturas, a chuva já havia virado uma leve garoa). Pelas ruas apertadas da Cinelândia e do Saara, poucas pessoas arriscavam caminhar naquele tempo… de certa forma, isso contribuiu para que eu aprecisasse ainda mais o meu pequeno e solitário tour.

Andar pelo Centro Antigo do Rio é “voltar no tempo” — eu havia lido algumas páginas de “1808” de Laurentino Gomes. Enquanto caminhava por aquelas vielas estreitas de paralelepípedos, meu olhar contemplava cada detalhe arquitetônico das velhas paredes — algumas em ruínas — daquelas construções.

Os comerciantes — a maioria árabe, talvez isso explique o porquê de se chamar “Saara”?? — na porta, conversavam com outros colegas de ramo e vizinhos de porta. Por acaso, acabei encontrando uma livraria aconchegante: a Loyola.

Como a previsão do tempo não era nada animadora — afinal, era janeiro e fazia frio em pleno verão carioca! Se não ia dar praia, pelo menos, iria dar livros. Comprei o “Elite da Tropa” e devorei-o em apenas uma tarde. O livro consegue ser ainda melhor que o filme!

E olha que eu não sou muito fã de thrillers policiais literários… mas “Elite da Tropa” rompeu essa certa cisma que eu tinha. No dia seguinte, o sol deu as caras no céu carioca e eu pude enfim, visitar o Cristo Redentor. No caminho para o Corcovado, nas ruas de Botafogo, Laranjeiras e Cosme Velho, tudo que eu havia lido em “Elite”, começava a ganhar “cores e forma”.

Sozinho, não havia ninguém para conversar. Restou-me ouvir a conversa das pessoas ao meu redor: da filha marrentinha que sentada no colo da mãe, ralhava com ela por algum motivo; o cobrador e o motorista falando da pré-temporada do Flamengo e Botafogo; da garota ao celular, explicando ao chefe que iria chegar um pouco mais tarde no serviço…

Da janela do ônibus, eu observava o movimento das ruas. Carros, motos, pessoas agitadas e apressadas… onde queriam chegar?

Volta e meia, acordava desses pensamentos, pelo soar da campanhia do ônibus, que anunciava que mais um passageiro iria descer. Quando dei por mim, estavamos apenas eu, o motorista e o cobrador. Um medo me ocorreu: “será que a qualquer momento, algum delinquente vai acenar para o ônibus e assaltá-lo?”, perguntava para mim mesmo, silenciosamente.

Mas antes de eu chegar a uma resposta, o cobrador interrompeu meus pensamentos: “Moço, chegamos. Pode descer aqui: o Corcovado tá ali na frente”. Desci. O ônibus partiu lentamente. Assim que o bólido coletivo destampou minha visão, pude ver as “mãos do Cristo”.

Estava à 30 minutos e 35 reais de um dos meus desejos pessoais: o que eu sentiria lá em cima?

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